Pessoa grande ou pequena?

Quantos anos você tem? Mas eu não estou falando da idade cronológica, estou falando da idade mental. Agora, quantos anos você tem? Você já é uma pessoa grande? Você já sofreu tanto que fechou seu coração e o guardou numa caixinha debaixo do sofá e já deixou de sonhar por ter experimentado a dura realidade da vida? Ou seu olhar ainda brilha só porque está passando na TV o seu filme favorito?

Se eu te mostrasse esse desenho, o que você me responderia? Este é o retrato de um chapéu ou de uma jiboia que engoliu um elefante?

“Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me “Por que um chapéu daria medo?” Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas.” (O Pequeno Príncipe)

Invisibilidade.

Uma vez, em seu livro “Doidas e Santas”, Martha Medeiros contou uma história que aconteceu com ela. Ela estava na sala de embarque, esperando seu voo, sentada em uma cadeira e de repente, um homem (gordinho) veio em sua direção, e fez como quem ia se sentar na cadeira. Isso mesmo, na cadeira dela. Isso mesmo, em cima dela. Ele não a viu.

Você pode se perguntar “Como assim? Como ele não viu que ela estava naquela cadeira?” Ele simplesmente não viu. Assim como a gente também não vê quando o nosso vizinho (aquele chato) acena e nos dá “bom dia”. Assim como a gente não vê quando uma pessoa que trabalha/estuda no mesmo lugar que você passa por você, sem o uniforme. Assim como a gente não vê as coisas boas que aconteceram na nossa vida. Do mesmo jeito que a gente não vê isso, aquele homem não a viu.

Você irá dizer “Mas é uma pessoa, como não ver uma pessoa?” É né, pois é! É uma pessoa, como não vê-la? Essa pergunta tem que ser feita a você mesmo. Sabe aquela pessoa que era sua amiga e, dias atrás, sentou do seu lado no ônibus, e você não falou com ela porque não viu? Como você não a viu? Ela é uma pessoa! E aquele rapaz que entrega sua pizza, que falou com você no meio da rua e você não o viu? Ele é uma pessoa, como pode ter você não o visto?

“Ah não, é diferente.” Diferente porque? Existem duas pessoas na história, uma viu a outra, mas a outra não a viu. “Ah, mas é diferente, ele ia sentar em cima dela.” É, você não sentou em cima da pessoa, mas você não a viu. Do mesmo jeito do homem.

Só que existe um detalhe: você, supostamente, não viu. Você finge que não vê, que não conhece e que não lembra. Mentira minha? Não. Porque eu também faço isso, infelizmente. Só que o que acontece é que de tanto a gente “não ver”, de tanto “passar batido”, as coisas ficam verdadeiras. O “não te vi” passa a ser uma cegueira, e o “passar batido”, esquecimento. E as pessoas vão sendo deixadas para trás, sem a mínima atenção. Sem explicação.

Afinal, o cara da pizza não é tão conhecido assim, não é? Aquela sua antiga amiga, faz quanto tempo, quatro anos que não fala com você, então pra que reconhecê-la? Lembre-se que não existe só você, existem os outros.

“Moral da história: preste atenção. Mesmo onde você enxerga um vazio, pode ter gente dentro.” (Martha Medeiros)

Importa?

 

Apesar de não ser muito próxima dela, eu fui lá conversar. Saber o que estava acontecendo. Afinal, estava óbvio que alguma coisa grave tinha acontecido, ela passara a manhã inteira com a voz falhando e com a cara de quem não suporta mais tantas coisas. Nossa, ela estava mal. Quando eu apareci, ela só não começou a prantear devido ao ambiente em que estávamos. Eu não sabia que alguém podia ser tão frágil. Ela estava mal, eu fui ajudar. Uma estrangeira atravessando a fronteira de um mundo totalmente novo e desconhecido. Enquanto eu estava com ela, amigos passavam, conhecidos passavam e ninguém parava. Ninguém dava sequer um “oi”. Escutei depois uma amiga dela chamando para ir embora, mas nem um pouco comovida com o quadro em que ela se encontrava.

Pode alguém ser tão alheio a outro, dessa forma? Pode sim. As pessoas mais próximas, às vezes, são as mais indiferentes, são as que não enxergam a sua dor, as que ficam cegas. Ou se não, é só gente que não se importa. Ok, ela está mal, não posso fazer nada então vou fingir que não vi. Ou se não, já sei qual é o problema, como já sei, não vou nem perguntar o que é. Não esqueça que um dia, você poderá estar nessa situação e bem, você vai sentir o quanto a indiferença dói.

Você se importa com os sentimentos dos outros, como eles estão se sentindo, se a temperatura está boa. Mas não fique aflito, nem se entristeça quando ver que, aquela pessoa que deveria se importa não se importa. Aquilo que é totalmente relevante para você, para outros é só mais um detalhe que pode passar batido.

Feche a gaveta.

Tem coisa que me irrita, tem coisa que me incomoda. Tem coisa que me faz gritar alto, contar até mil (de trás pra frente) e que me faz perder o juízo. Existem aquelas coisas que me irritam, mas que me dão o que pensar.

Pare e pense em tudo que irrita você. Tudo, tudo mesmo. Se sentir um pouco de cólera ao pensar nisso, normal. Só não deixe isso sair do controle, não fique com raiva pra valer. Só reflita. Nós temos um calcanhar de Aquiles, não importa quem nós somos. De Gandhi a Osama, todo mundo tem um ponto fraco, uma coisa que te faz perder as estruturas. Não são os mesmos sintomas da irritação? Oh sim, são.

Uma coisa que me irrita muito é bater o meu cotovelo em algum lugar. Se você quiser me ver xingando, espere eu bater meu cotovelo em algum lugar. Dessa vez, eu o bati na gaveta do birô. Ela estava aberta, eu estava no computador e sempre, sempre que eu mexia o meu braço, lá estava a quina da gaveta dando uma alfinetada no meu ombro descoberto. Foi a primeira, foi a segunda, a terceira… Na quarta, eu me irritei e pronto, fiquei irritada.

Se você for uma pessoa esperta, vai me dizer pra fechar a gaveta ao invés de ficar irritada, certo? Totalmente certo. Ao invés de me irritar por estar batendo o cotovelo na gaveta, eu devo fechá-la e então, meu problema será solucionado. E foi isso que eu fiz. Me irritei e fechei a gaveta, simples como um miojo. E agora eu estou super alto astral.

Muitas explosões de raiva que nós temos se dá por gavetas que nós não fechamos. Sabe o que é fechar a gaveta? Quando sua mãe brigar com você por causa da toalha molhada na cama, não se irrite: feche a gaveta. Vá lá, pegue a toalha e estenda! Você acabou de fechar a gaveta que batia no seu cotovelo. Quando o seu professor brigar com você por causa da sua conversa, não se irrite e solte alguma piadinha: feche a gaveta. Pare de conversar ou se não, mude de lugar! Pronto, mais uma gaveta fechada. Feche as gavetas e sua irritação será guardada dentro dela.

Mas, não feche só as suas gavetas. Feche as gavetas dos outros. Se você acha que irrita alguém, que está machucando alguém, pare. Se você não gosta de bater o seu cotovelo na gaveta, porque eu gostaria?