Piração ou inspiração?

Quem nunca acordou um dia com a cabeça cheia de textos, desejos e sonhos? Acordou achando que tinha descoberto a mina de ouro que estava escondida dentro de você? Achando que tinha achado o seu verdadeiro eu? Dias assim são altamente comuns. Tudo soa prosa e poesia. Tudo ou nada dão um texto de quinhentas palavras pra você. Em dias assim, você abre o diário velho que estava jogado em cima do seu guarda roupa, ou no fundo da sua gaveta e começa a escrever. Ou começa a pensar em escrever. Mas na hora de colocar tudo num papel, as palavras não parecem suficientes pra expressar seu “lampejo” de escritor e você logo desanima porque os pensamentos estão devagar. Então você lembra da sua amiga internet e ela te abre uma porta. Uma porta que você acha que a entrada para o paraíso.

Ter um blog hoje em dia é fácil. Domínios e hospedagens dos mais variados tipos, gostos e sabores. É só se cadastrar e pronto, você tem um lugar para colocar as coisas que você gosta, as coisas que você pensa, as coisas que você detesta e até aquelas indiretas mais que diretas que nunca sairão da sua imaginação. Você pensa em escrever sobre aquela pessoa do colégio que persegue a sua vida, ou sobre o nome que você deu àquela pedrinha que um dia entrou no seu sapato. Na internet, ninguém é de ninguém e o mundo é nosso. Cada um por si e Deus por todos. A teoria é muito simples, fácil e barata. Mas e a realidade? A realidade não agrada a ninguém.

Um dia de inspiração é comum; dois dias, razoável; três dias, opa! peraí. Uma semana? Praticamente impossível. Principalmente para uma mente ociosa e complicada. Você liga o computador, olha para o seu blog e nada, absolutamente nada vem à mente. Você vasculha no fundo da alma e no fundo da cabeça e nenhuma epifania acontece. E agora, o que fazer?

Quem tem blog sobre tudo, coloca uma foto e fala alguma coisa. Quem tem blog sobre moda, tem o weheartit (que eu amo), mas e quem tem um blog pessoal mas que não é o seu diário, do que fala? Não fala. Só enrola.

Hoje é o dia comum de uma pessoa comum que tem um blog, comum. Um dia sem inspiração. Onde, quando tudo está colorido, ele está cinza.

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Idade relativa.

Uma coisa que acontece com todo mundo, mas ninguém nunca percebe. Abra seu guarda-roupa e olhe qualquer roupa que esteja lá. Lembre de quando você a comprou. Há quanto tempo? O tempo varia. No meu caso, as minhas roupas duram muito tempo, muito mesmo. Existem roupas minhas que tem três anos! Nossa, três anos? Isso. Uma roupa que tem três anos é uma roupa velhíssima não é? Mas uma criança que tem a mesma idade que a roupa, não. É uma criança. Um pingo de gente que não sabe de nada da vida. As coisas materiais são efêmeras demais comparadas as pessoas. Pelo menos isso ainda não mudou, embora a prioridade tenha se invertido.

Hoje em dia, quando alguém diz “isso é algo que eu nunca vou esquecer” eu realmente fico a pensar se é mesmo isso que vai acontecer. Se, para aquela pessoa, aquilo foi realmente inesquecível. Pode ser qualquer coisa: um beijo, um abraço, um milagre, um dia, alguém. Ou uma roupa. Mas existem coisas, que não dá pra esquecer. Nem que você queira. Existem coisas que você vai lembrar sempre, ou porque o seu cérebro é muito bom, ou porque a mídia não vai deixar. Por exemplo, quando algum famoso morre, uma semana inteira sobre aquela pessoa; quando um terremoto ocorre, duas semanas sobre a catástrofe e por aí vai. É inevitável. Mas, e um crime contra a humanidade? É inesquecível porque? Por causa das pessoas, por causa da barbaridade ou por causa da mídia?

08:46; 09:04; 11 e 175; 93 e 99; 77 e 85; 2,752; 11/09/01. 10. Sabe o que esses números significam? Não? Horário, voo, andares, pessoas, dia e idade. Já se situou? Há dez anos. Teve gente que nasceu, teve gente que morreu. Aproximadamente 2.000 pessoas morreram de forma trágica e memorável, naquele lugar. Teve gente que morreu ajudando os outros, teve gente que morreu porque não conseguiram ajudar.

Eu não quero saber se foi conspiração ou ataque terrorista. Quem fez, sabe. O meu 11 de setembro não é influenciado por forças políticas ou conspirações. Eu lembro do onze de setembro porque foi uma data que mudou o mundo. E não me diga que não foi. Muitas vidas mudaram por causa disso, então não dá pra, simplesmente ignorar. Dizer porque eu tenho uma atenção especial a esse dia, eu não sei. Mas o que eu sei, é que, independentemente do que digam, o onze de setembro de 2001 é inesquecível. Uma prova de que, ninguém, independentemente de onde estiver, está livre de um ataque. Um ataque que pode vir de cima. Quando você menos espera.

Janela, janelinha.

Eu gosto de fingir que estou num filme. Que todos os meus pensamentos estão em flashback. Aquela sensação que você é a protagonista de um filme tipo “A” de Hollywood. Olhar pela janela, abrir os olhos e achar que o mundo é meu. Sentir o sol no rosto e fingir que está tudo bem. Que as pessoas estão do meu lado, que problemas não existem e que eu vou conseguir tudo o que eu quero. Janela tem esse feitio, sabe? Nos dá a ilusão de que uma nova vida está por vir, que todos aqueles medos que fizeram você acordar no meio da noite eram só pesadelos, fantasias produzidas por uma mente ociosa. O sol bate no rosto, uma sensação de paz. Os olhos fechados, e a mente aberta, cheia de pensamentos ensolarados e de dias felizes. Aquelas buzinas, motos querendo passar, gritos e portas se abrindo. Tudo isso parece estar num mundo paralelo, e a sua paz inabalável. Mas então, uma hora alguém te chama lá dentro. Abre os olhos, relaxa os braços e deixa a janela ali, ou se não a fecha. Você está no mundo real, infelizmente.

Nas janelas, os namorados declaram-se pras namoradas, as pessoas se despedem, o passarinho canta. As fofoqueiras veem um homem saindo da casa daquela mulher, de má reputação. As mães acordam os filhos com o sol que já bate forte, os chefes miram a paisagem que entra pela janela de vidro do escritório cinzento.

Foi numa janela que eu me despedi de você. Eu não sei se você viu. Quando tudo acabou, você acabou tomando um caminho diferente da minha casa. Mas, a esperança cega a gente, né? Foi ali, naquela janela, que eu preguei todos os meus sentimentos. Onde, todos que ali passavam, podiam ver uma declaração, boba, de amor. Minha pra você. Aquela janela, aberta, que deixava a luz da noite entrar, foi o lugar onde derramei minhas lágrimas por você. Lágrimas de arrependimento.

Fechei a janela. Está frio e perigoso. O mundo real não virou um mundo paralelo. Amanhã, de novo, a mesma sensação momentânea de liberdade.

Ir e vir, infinito.

Como a maioria das pessoas (ou minoria, tanto faz), eu não passei o feriado em casa. Eu e minha mãe fomos pra Tibau. Para Tibau, somente. Nem venham até a mim dizendo: “Ah, foi pra praia”, eu irei dizer que a sua construção frasal está errada. Eu não fui à praia, nenhum dia sequer. Passei três dias dentro do quarto, com meu computador, jogando e assistindo seriados. Se você olhar pra mim não irá ver nenhum bronze ou marquinha de biquini, só a minha velha marca de camiseta, de caminhoneiro. Mas o fato é que hoje, diferente dos outros dias, eu fui. Não bateu a rebeldia em mim, na verdade, eu queria ir. Não, não queria, mas eu fui mesmo assim. Mudei minha roupa várias vezes, afinal, quando você não quer algo, tudo coopera pra que você não faça, pelo menos hoje isso aconteceu comigo. Coloquei um vestido mesmo. O sol estava o mesmo e a estrela estava lá, do mesmo jeito que eu o deixei da última vez que eu fui lá. Na verdade, estava mais calmo. Eu caminhei, fui até lá, eu queria ver de perto o meu velho companheiro de reflexões. Eu fui à praia somente hoje com uma intenção, a intenção de que ele levasse embora todos os meus problemas, o meu mau humor, eu queria que ele levasse embora as minhas mazelas, meus erros. Litlle girl. Hoje, com essa minha caminhada até o mar, eu aprendi duas coisas: o mar é que nem o tempo, ele não para por você. Você pode estar cheio de problemas, querendo encontrar soluções, jogar tudo pra Iemanjá, mas ele não vai parar por isso. Na verdade, seus probleminhas são na verdades, mínimos probleminhas. Olhe praquela imensidão, aquela massa de água enorme, horizontal, imponente, capaz de confundir todos com suas rotas, marés e luas. Você realmente acha que ele liga? E outra, ele vai continuar ali. Fazendo o trabalho dele, servindo de abrigo e de morada pra várias espécies que realmente precisam dele. O mar não vai levar embora seus problemas, seus erros, suas mazelas, aquela dor de cabeça ou dor de dente que não passa. Ninguém e/ou nada vai fazer isso por você. Você tem que se livrar dos erros, seus problemas, sua dor de cabeça. Tome uma aspirina, vá a um dentista, encare os problemas de frente, peça perdão quando errar, mas não peça pro mar levar embora, porque quando você olhar pra trás, você vai ver pessoas, carros, barracas, casas e vai ver o mundo real e você vai ver que tudo continua ali, que sua vida ainda está ali. Seja você a pessoa a se livrar dos erros, suas dores de cabeça e etc, deixe o mar fazer o seu ir e vir infinito, vai e volta, vai e volta, vai e volta, infinito.

A bailarina.

Uma quadra enorme. Pessoas ao redor. Quase na hora de começar. Rodopia, rodopia. Para e quem gira é o mundo.

Desde pequena, meninas tem o comum sonho de se tornarem bailarinas. E bem, não era diferente. Vídeos, sapatilhas, postura, tudo do mesmo jeito. Crescer não mudou a vontade. Na verdade, pra ser sincera, na infância pouco se pensava nisso. Até um dia desses, até o dia em que ouviu as meninas da turma dizerem que estavam fazendo balé. Parece que tudo aquilo evocou uma paixão adormecida no peito e pronto, a vontade estava instalada no corpo e na alma. Na vida, nada é perfeito. Se não fosse uma escoliose, uma inflamação no  joelho (nos dois) e um desvio na bacia, até que poderia dar certo. Se houvesse também dinheiro. Só que um sonho não se acaba assim, uma vontade não se mata só bebendo água. Sonhar não é crime, se imaginar dançando e calçar sapatilhas alivia um pouco o impedimento. Ela poderia estar parecendo ridícula aos olhos de quem via, poderia alguém pensar “ela acha que sabe dançar”, mas naquela hora, valia a diversão. Não, eu não sei todos os nomes, eu conheço apenas o Bolshoi, meus en dehors não são perfeitos e eu não sei abrir escala. Mas isso não importa, eu não sou bailarina (não na vida real). Mas num mundo paralelo, eu sou bailarina e me chamo, como é mesmo Rui? Ah é, me chamo Tanya.

Mesmo de vestido, descalço e num chão sujo, eu rodopiei. Mesmo errando a cabeça, as pernas e tudo o mais, eu pensei ser uma bailarina naquele momento. Mesmo tendo uma aula, mesmo com todo o meu choro, não consegui entrar pra uma academia. Mas mesmo assim, digo que Black Swan é a minha preferida e avalio as bailarinas como se fosse Carlinhos de Jesus. Muitos dos meus sonhos nunca vão se realizar, mas não é por isso que eu vou trancar dentro de mim todas as minhas fantasias. Vou ser chamada de poser, de falsa fã e de forçada. Mas, mesmo assim, eu babarei por qualquer coisa que envolver balé. Nem que isso seja apenas uma camiseta com uma sapatilha de ponta que você me deu.