Ponto de vista.

Eu poderia dizer que tenho um avô idoso, que está com depressão profunda, câncer de prostáta, infecção urinária, sondado, que toma muitos e muitos remédios e que não sai mais da cama. Ao invés disso, eu digo que meu avô tem 92 anos, fala, ouve, enxerga e tem uma lucidez melhor que a minha. Digo que, mesmo sendo semi-analfabeto, teve onze filhos e os criou de forma exemplar. Me impressiono com o fato de que ele estava vivo na Primeira Guerra Mundial e viveu na época de Lampião. Dizia eu, até um tempo atrás, que ele não tomava nenhum remédio e tinha a força e a vivacidade de um adulto. E que apesar de tudo, eu nunca esquecerei do sorriso dele ao conversar comigo, ou quando ele me sentava em seu colo e me contava histórias. E eu nunca vou esquecer do dia em que, eu estava deitada na cama e mesmo com toda a sua debilitação, ele mexeu nos meus cabelos, como um sinal que ainda lembrava e me amava.

Eu poderia dizer que a minha avó é semi-analfabeta, que sofre, que não tem mais liberdade por causa do meu avô, que fala errado e que está ficando esquecida e que tem atitudes um tanto quanto atrevidas demais. Ao invés disso, eu olho para ela e vejo alguém que, mesmo com todas as restrições da personalidade rabugenta do meu avô, deu a volta por cima e mesmo não se tornando uma andarilha ou dona de boutique, nunca deixou a personalidade morrer. Mesmo sendo ingênua demais, é uma pessoa simples de coração e que gosta de fazer os outros se sentirem bem. Que foi (e sempre será) uma mulher pra frente, de mente aberta e que sabe usar as palavras como quem tem cartas na manga. E que criou onze filhos com poucos recursos e muito amor.

Eu poderia dizer que minha mãe é deficiente, teve um câncer, é estressada, solitária, mente fechada, ranzinza e orgulhosa. Mas ela é uma vencedora que batalhou até o fim para viver. Que enfrentou o medo que sempre fez com que ela não se arriscasse e voltou a viver. Alguém que viu o seu primeiro namorado morrer e mesmo assim não se deixou abater. Que viu pessoas em que ela sempre confiou darem as costas e traí-la quando ela mais precisou e mesmo assim, não se deixou cair. Que nunca serviu de degrau para ninguém subir e que nunca deixou que ninguém apagasse sua estrela. Que, todo mês, do pouco faz muito e que dá o seu melhor para que todos se sintam bem. Que faz sua personalidade ser lembrada e que deixa claro quem é que tá mandando ali. E que, mesmo viúva, criou sua filha de maneira exemplar e que ensinou para ela o que era certo, o que era errado e o que era possível.

Eu poderia dizer que meu pai era um beberrão, um irracional que deixou minha mãe na pior. Que fez dívidas, que não pensava antes de agir, agia pelo impulso. Só que, para mim, meu pai era o meu exemplo. Era o homem da minha vida. Os olhos verdes que iluminavam a minha manhã. O sorriso mais lindo de todos. O dono da moto que me fazia sentir liberta. Que fazia de tudo para me fazer sorrir e que não me educou batendo. O meu professor de matemática particular, que me ensinou o que eram bombons e chocolate (rs). Que mesmo errando, me deu exemplo. Que sabia lidar com qualquer situação, e que fazia com que todos gostassem dele. Era o mestre na arte da invenção e nunca ficava por baixo. Não se deixava humilhar, mas não humilhava ninguém. Sempre ajudou e sempre foi responsável pelo que cativou.

Eu poderia dizer tantas coisas, tantas. Na vida, todo mundo tem problemas. Todo mundo tem uma barra para enfrentar todos os dias. A vida não é justa, e nunca vai ser. Mas se ela é boa ou ruim, é tudo uma questão de ponto de vista.

P.S.: Te amo, pai.

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