Orgão independente.

O coração tem jeitinho de enganar a gente. Quando você está indo, seu coração já está voltando há muito, muito tempo. Na verdade, ele fica esperando você voltar antes de dar algum sinal, para ver a sua reação. A reação de espanto que você vai fazer quando ver que nada daquilo tudo que você fez adiantou. Que chorar, escutar músicas que um dia você disse que nunca se encaixariam na sua situação, escrever seus sentimentos numa folha e queimá-los, ou só, dizer e “admitir” que tudo acabou, nada disso fez nenhum efeito. E que tudo aquilo que você quis (e tentou ardentemente) jogar fora, continua ali, intacto, bem guardadinho num lugar chamado fundo do seu coração.

O coração não tem ouvidos. Ele não ouve o que você diz, seja pra você ou para os outros. Ele age independemente. E não quer saber se isso vai te fazer cair doente na cama ou vai fazer você feliz. Olhou, gostou; pronto, entrou no coração. E pra nunca mais sair. Todos os sentidos estão ligados ao coração, menos a audição. Então não adianta você dizer pra si mesmo que acabou, porque o coração não vai escutar. Ele pouco liga pra o que você está dizendo. Na verdade, ele zomba de você. Porque você morre de repetir, na frente do seu espelho, que não gosta mais dele mas, quando você vê alguém com a cor do cabelo dele na rua, a mão sua e o coração dispara.

Como todo ser humano normal, eu já falei muitas coisas pra o meu coração. Num ato desesperado de consertar as minhas feridas. E quem disse que ele me ouviu? Nunca, jamais. Por mais que isso me ferisse, ele não estava nem aí. Eu já sabia que o coração não me escutava, mas continuei dizendo pra ele que não podia. E ele, continuou mostrando que não me ouvia. E eu acabei por tirar a prova. E desisti. Não vou lutar contra o meu coração. Mas quem vai sofrer, ao invés de mim, será ele.

Eu disse a você, não foi? Entramos em comum acordo. Não dava mais. E pronto, decidimos virar a página. Mas esquecemos de mostrar pra o orgão independente que agora ele teria que procurar outro alguém. E aí, o tempo passou. Eu guardei os meus sentimentos naquela caixinha, pequena, escura que fica no fundo do coração. E ficou lá, por muito tempo. A nossa amizade continuou, e tudo era muito, muito bem-estruturado. Mas eu esqueci que o coração é orgão independente. Ele foi lá, revirou as minhas coisas e abriu a caixinha, sem a minha permissão.

Eu não sabia que estava tão forte em mim. Não fazia a mínima ideia que tudo estava guardado tão forte. Acho que quando nós guardamos um sentimento, alguém vai lá e coloca fermento, só pode. É a única explicação plausível para o que aconteceu comigo. Eu cheguei e ali estava você. De costas. A mesma pessoa, da cabeça aos pés. Só que a cobertura dava um ar muito mais pomposo e mais bonito a você. Quando eu te vi, o coração abriu a caixinha e disse “é agora”. E pronto, eis que tudo se fez (de)novo. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo, até a hora em que você olhou pra mim e sorriu.

Eu nem deveria estar ali, eu deveria estar em casa. Mas eu fui, como sempre. Você não me viu e a minha coragem inexistente não me deixou ir lá. Só que os olhares ainda funcionam, mesmo no século XXI. Você estava impecável e eu nunca tinha visto você daquele jeito. Sua timidez deixava você muito mais do que você já era, pra mim. Todos perceberam que não perturbassem, que nos deixasse a sós.

Eu não sei quantas vezes eu já te disse isso, mas foi o suficiente pra você saber. O toque da sua mão na minha é algo que faz com que minhas pernas fiquem bambas. Sinceramente, acho que qualquer coisa, hoje, que você faz quando está comigo, me deixa fora de órbita. Até suas costas.

Eu gostaria de colocar muitas coisas aqui, mas as minhas palavras são independentes.

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2 pensamentos sobre “Orgão independente.

  1. Pelo menos agora eu sei que eu não sou totalmente dependente, meu coração é independente. Ele não tem ouvidos mesmo, não adianta gritar ou fazer mímicas, ele não escuta, não percebe.

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