Teatro no palco. Às dez.

E de que serve esse nervosismo todo? De que serve essas minhas mãos suadas, essas borboletas no meu estômago e esse sorriso grande demais no meu rosto? De que serve esse desgaste emocional se eu sei que você não vem. Você não apareceu ontem, tampouco aparecerá hoje. Então, porque eu ainda espero que um milagre aconteça, e que você venha?

A esperança foi sempre um grande problema meu, quando se trata de você. Foi ela que me alimentou esse tempo todo, com coisas pequenas e detalhes fúteis sobre você. Ela foi a minha companheira naquelas noites de sábado, em que você saia de casa pra viver a noite e eu ficava na internet, esperando noticías suas. Esperando um telefonema, uma mensagem ou qualquer sinal de vida que você pudesse dar. Ela era aquela voz na minha cabeça que dizia que tudo ia dar certo, e que no final, você descobriria qual a escolha você deveria fazer. Diferentemente de você, a esperança me fez companhia.

Com você, tudo funcionava diferente. Nada do que parecia dar certo com os outros, daria certo com você. E por maior que fossem as probabilidades de acerto com você, o jogo sempre mudava. Sempre era xeque-mate pra mim.

Se me pedissem hoje pra explicar o ontem, eu não conseguiria. Embora ontem eu soubesse explicar. Eu não sei o que deu em mim, mas eu realmente me enchi de todo aquele teatrinho que estava ao meu redor. Você no palco e eu, na coxia. Eu tinha que aparecer, afinal, aquilo também era sobre mim. Os holofotes não podiam ser seus pra sempre. Então eu fui lá, eu apareci. Mas parece que eu peguei o roteirista de surpresa e entrei antes da minha deixa, e bem, tudo foi abaixo.

Diferente de antes, eu apareci antes das dez da noite. Antes da hora em que você ligaria pra mim, meio bêbado e falaria coisas bonitas e (in)sensatas. E bem, eu peguei você no flagra. Falando uma fala que não estava escrita no meu script, mas estava no seu.

Não, não foi traição. Ou será que foi? Não foi enrolação. Na verdade, não foi nada disso que ninguém está pensando. Eu não te peguei aos beijos ou se declarando pra outra menina. Graças ao meu bom Senhor, você nunca foi desses. Eu só apareci na hora em que você não queria me ver, antes das dez.

Você nunca quis dividir o palco com ninguém. Você sempre foi o solista, o galã da novela das oito. E todos os outros, deveriam ser apenas coadjuvantes. Só que eu não aguentava mais ficar assim, atrás de um ator. Eu tenho o meu palco, as minhas deixas e minhas falas. Você deveria ter me assistido antes de querer que eu saísse dali. Deveria ter avaliado se realmente eu ficaria escondida atrás de uma coxia, enquanto você brilhava. Só que você foi pela beleza de ter mais um de apoio. E foi isso que eu fiz, não foi? Fiz até demais.

Não houve briga, não houve conversa. Só houve uma troca de olhares. Eu baixei a sua guarda e você não foi muito tolerante. Aquele seu telefonema (às dez) me fez acordar e perceber o que eu tinha feito. Eu tinha mostrado pra você quem eu era e quem era você. Você disse que iria aparecer, às dez. Dez horas, sua deixa. Só que você abandonou o palco, você foi embora e já se descaracterizou. Então, não adianta, esperança, ele não é mais ator.

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